sábado, 13 de fevereiro de 2010

País das Maravilhas

Imagine você numa cidade estranha com gente estranha e um calor incomumente bizarro. Você acorda todos os dias antes do sol nascer para tomar um banho sem vergonha, só pra dizer que saiu de casa limpa. Se veste pra gente desconhecida. Nada é familiar; você ainda se perde. Olha no relógio e percebe que de nada adiantou levantar-se antes do mundo. Seu banho sem vergonha, só pra dizer que saiu de casa limpa, durou seu tempo de café e só lhe resta meio cigarro na caminhada até o ponto. Ninguém diz bom dia - isso é meio que um alívio. E depois são horas arrastadas de espera até seu destino - e a cabeça vagueia por lugares conhecidos por tanto tempo que você até esquece onde está. Você assiste o sol nascer. Você faz planos. Você percebe que não poderá realizá-los, porque três horas - 185 malditos quilômetros - te separam de casa. Onde tudo é familiar. Onde tudo tem cheiro de tempos melhores. Foram 18 anos de tentativas frustradas até você conseguir se encaixar e você se pergunta se serão 18 anos de mais frustração até se encaixar no lugar estranho com gente estranha. Você não é Alice, mas o tempo também corre onde você está.