"Nossa!" eu exclamei. "Como você está diferente. Mudou, está bonita."
E ela apenas me lançou um sorriso triste, meio de lado, como quem diz que não pode dizer o mesmo. Eu carregava uma cerveja em uma mão e um cigarro na outra. Ela, nada. Apenas tinha um fone no ouvido, o outro pendurado educadamente sobre seu ombro esquerdo.
Ficamos nessa por um tempo. O silêncio tão denso que poderia ser cortado com uma faca ou sofrer uma grande perturbação caso alguém se movimentasse bruscamente. Dava pra sentir, enquanto ela fixava seus olhos enormes do tamanho de duas jabuticabas em os meus já caídos por efeitos alcoólicos.
Então ela levantou uma mão, imediatamente perturbando o campo que havia se formado entre nós. As unhas dela não estavam pintadas - eu percebi enquanto ela aproximava sua mão do meu rosto, tocando suavemente minha bochecha esquerda com a ponta de seus dedos pequenos.
"Tem uma manchinha aqui," ela disse com os olhos voltados pra minha bochecha. "Você também está diferente. Mais magra e mais sozinha. Quando foi a última vez que você olhou no espelho? Porque você mudou."
Ela desfez o contato contra meu rosto e deu um passo para trás.
"É," ela pausou. "Você mudou."
E que saudades da sua companhia solitária!
