domingo, 23 de maio de 2010

further explanations

Ontem a noite eu tive um encontro casual com alguém que eu decepcionei e deixei para trás.
"Nossa!" eu exclamei. "Como você está diferente. Mudou, está bonita."
E ela apenas me lançou um sorriso triste, meio de lado, como quem diz que não pode dizer o mesmo. Eu carregava uma cerveja em uma mão e um cigarro na outra. Ela, nada. Apenas tinha um fone no ouvido, o outro pendurado educadamente sobre seu ombro esquerdo.
Ficamos nessa por um tempo. O silêncio tão denso que poderia ser cortado com uma faca ou sofrer uma grande perturbação caso alguém se movimentasse bruscamente. Dava pra sentir, enquanto ela fixava seus olhos enormes do tamanho de duas jabuticabas em os meus já caídos por efeitos alcoólicos.
Então ela levantou uma mão, imediatamente perturbando o campo que havia se formado entre nós. As unhas dela não estavam pintadas - eu percebi enquanto ela aproximava sua mão do meu rosto, tocando suavemente minha bochecha esquerda com a ponta de seus dedos pequenos.
"Tem uma manchinha aqui," ela disse com os olhos voltados pra minha bochecha. "Você também está diferente. Mais magra e mais sozinha. Quando foi a última vez que você olhou no espelho? Porque você mudou."
Ela desfez o contato contra meu rosto e deu um passo para trás.
"É," ela pausou. "Você mudou."
E que saudades da sua companhia solitária!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

I get them all day through, first from them, now from you

Cansei de todo esse barulho! Chega de trens pesados em trilhos de metal e trim trim irritante de despertador. Cansei de plac plac de papel batendo um contra o outro na Rio Branco e também de apito das roletas. Não aguento mais ouvir estórias de quem não existe e crianças andróginas na televisão. Cansei dessa cidade que explode em sons até mesmo no silêncio mais profundo da hora dos espíritos. Quanto maior o barulho, maior meu silêncio.
E dá vontade
de
GRITAR.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Fantasma em Botafogo

Hoje na estação de Botafogo eu vi um fantasma. Ele usava as mesmas roupas da última vez que o vi e o mesmo cabelo levemente encaracolado. O fantasma deu as costas sem me olhar uma única vez e subiu as escadas - a cada passo de suas pernas há pouco curtas, duas porradas fortes no meu peito. Meus pés grudados no chão, meus olhos em sua blusa branca. Eu observei, sem me mover, enquanto ele alcançava os últimos degraus e passava a roleta, alcançando as cabines de fora. Eu pisco - vai que ele some? Mas ele ainda está lá, um pé atrás do outro, em seus passos marrentos para a direita. Meus olhos o acompanham até a saída - mas ele nunca olha para trás.
O fantasma desceu em Botafogo, mas eu segui até a Uruguaiana com seu sorriso maldoso em minha mente e meus pés grudados no mesmo exato ponto desde que o vira.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Sunrise, Sunset

Quando foi a última vez que você olhou no espelho?
Porque você mudou.
É, você mudou.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

El cielo

O problema do carisma é que faz todo mundo acreditar.
O problema de acreditar é a decepção.
O problema da decepção é que é difícil de consertar.
O problema de consertar é ter que agir.
O problema de agir é o medo.
O problema do medo é que te deixa parado.
O problema de ficar parado é que nada muda.
O problema de nada mudar é que a decepção permanece.
Mas com o tempo dói menos, até que ficam apenas as memórias e os segredos mais profundos.
El cielo es azul, just don't go telling everyone.