quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

ele

Ele chega de mansinho e aos poucos vai te envolvendo. Aí você é pega de surpresa e vai se deixando ser guiada em sua dança. Ele te gira e gira mil vezes, até você ficar tonta, e de repente o ritmo lento vai acelerando e acelerando até você não conseguir mais sair dos braços dele. Vocês pararam de girar há tempos, mas o cenário ainda dá voltas eventuais. Você vai se deixando levar pelo estupor do seu toque, cheiro, aparência e sorriso torto. Ele nem é bonito. Ele te repulsa, até. Mas os rodopios desajeitados são como uma droga - e pelo menos desse jeito o mundo continua girando. Você não percebe - ou pelo menos finge que não -, mas lentamente ele suga sua vida pra fora de você. Então as cores almodóvar vão sumindo e sumindo, como tinta de cabelo descendo ralo abaixo, mas o movimento da água cristalina rodopiando e rodopiando te hipnotizam. Então você pára de apertar a mão contra a dele e o deixa te guiar. Você nem percebe, mas nesse meio segundo ele te envelheceu 20 anos. Seus olhos caíram, seu rosto precisa de cada vez mais maquiagem e seu cabelo vai ficando branco e branco e branco.