Hoje durante o almoço, enquanto a televisão narrava sobre o assunto Bruno, percebi que minha empregada estava levemente mais alegre que nos últimos dias. Essa semana ela apareceu quietinha, cabisbaixa, e nenhuma das minhas piadinhas copiadas do meu pai a fez rir, diferente do normal.
"Não entendo como alguém consegue dormir de noite sabendo que matou uma pessoa," eu joguei casualmente, fazendo papo furado.
"É verdade," ela disse. "Também não entendo."
Caímos no silêncio novamente, escutando a notícia, que mostrava uma foto de Eliza Samudio, feliz da vida, viva.
"A gente nunca acha que essas coisas vai acontecer com a gente, né?" Tentei novamente. Acho que essas foram as palavras mágicas, pois ela então levantou a cabeça, enquanto limpava as bocas do fogão, e contou a história de um amigo que entrou num ônibus em chamas para salvar a irmã e acabou morrendo.
De algum modo, o assunto fluiu até que ela contou do primeiro namorado dela. Ela tinha 12 anos, ele 27. Instantaneamente pensei mil coisas, mas fiquei quieta e me pus a escutar.
Os pais dela, como quaisquer adultos com senso na cabeça, imediatamente foram contra. Uma diferença de idade de 15 anos, afinal: ele tinha mais que o dobro da idade dela.
Depois de muitas idas e vindas e encontros às escondidas, ela achou que estava grávida. Nessas, ela já estava com 16 anos. Comprou um teste de farmácia e deu positivo. Imediatamente ficou desesperada, mas não contou aos pais, apenas o rapaz. Ela disse que ele começou a rir e gritar, feliz da vida, saltitando como uma criança.
Ela fugiu de casa e foi morar com ele... Então, fez 17 anos e a barriga não cresceu. Alguma coisa obviamente estava errada. Foi ao médico e ele disse que ela não estava grávida; que testes de farmácia às vezes dão errado e que ela deveria ter procurado um médico para confirmar. Disse, também, que por ela ser menor, ele teria de contar aos pais dela, a não ser que ela contasse primeiro. Nessa parte ele foi bem gentil, afinal, ela tendo 17 e ele 32, era pedofilia querendo ou não.
Ela contou pros pais, e, claro, "roceiros" (como ela mesmo colocou), eles deram uma boa e merecida coça nela. Ela, então, voltou para casa e o rapaz caiu na vida. Ainda assim, os dois continuaram mantendo contato e de vez em quando tendo um remember básico.
Dois anos depois, ela com 19 e ele com 34. A essa altura, ela já tinha vindo pra Macaé e estava trabalhando, sossegada, apenas conversando com o rapaz pelo telefone de vez em quando. Concordaram que agora as coisas eram mais possíveis para os dois: ela era maior de idade, agora, e ganhava seu próprio dinheiro. Combinaram um reencontro.
Enquanto isso, em uma das festas da cidade, o rapaz bebe com um único amigo em um lugar afastado, atrás de um caminhão. O amigo concorda em ir buscar mais cerveja, enquanto o rapaz espera. Não deveria demorar mais de 5 minutos, afinal.
Bem, aparentemente, 5 minutos foi o que levou para um homem cortar-lhe a garganta com uma faca. O amigo voltou e o encontrou semi-consciente, ensanguentado (um parêntese para adicionar que, nesse ponto da história, minha narradora se confundiu e não sabia se o assassino havia cortado a jubular ou a jubilar).
O rapaz morreu ali, assim mesmo, nos braços do melhor amigo. Ele disse que, em seu último suspiro, o rapaz lhe apertou a mão como quem diz "me vingue". Bem, eu prefiro acreditar que foi como quem diz "obrigado".
Acontece que o enterro do rapaz foi realizado e a pobre moça, desolada, não pôde faltar o trabalho e não deu seu último adeus. A mãe dela foi e disse que havia pelo menos outras 3 garotas chorando e falando que haviam perdido o amor de suas vidas.
"Taí," ela disse. "Era uma vez uma viúva... que não era viúva."