quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Mudando de assunto

Ela é um enigma desagradável.
Não sei se é inteligente, mas sei que é esperta - principalmente quando fuça por algo desnecessário na Internet para comprar, e nunca levou calote. Está sempre a frente de todos e quando tudo dá errado você pode contar com uma expressão impaciente combinada com olhos verdes que dizem "viu? não avisei?". Ela guarda cinco minutinhos de sua agenda corrida para explicar detalhadamente por que você estava errado, mas não fica com ar superior e a conversa termina com ela balançando a cabeça, olhando com pena e falando que sim, seu erro foi aceitável. Você ainda tem muito que aprender, verdade, mas ela parece que já nasceu sabendo.
Ela sempre quis te dar tudo e quem olha acha que não é tanta coisa para ela pelo seu olhar de indiferença, mas a verdade é que por dentro ela dá um sorriso de orgulho e dança ao som da sensação de auto-satisfação por ter feito você feliz. Ela não mostra, no entanto: aprendeu a se mostrar austera perante aos luxos.
É difícil de explicar, ela e suas várias idiossincrasias.
Pensando bem, acho que é um enigma bem agradável.

domingo, 19 de dezembro de 2010

The Wreckers fala tudo

Um dia talvez alguém vá me amar como eu preciso, mas até lá eu vou ficar bem com meus cigarros e essa estradinha de terra. Eu acho que gosto das noites silenciosas dessa vida vazia.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Tradução livre

Após um tempo você aprende
A sutil diferença entre
Segurar a mão e acorrentar a alma
E aprende que amor não significa se apoiar
E companhia nem sempre significa segurança

E você começa a aprender
Que beijos não são contratos
E presentes não são promessas
E começa a aceitar suas derrotas
Com a cabeça erguida e os olhos a frente
Com a graça de uma mulher
Não o luto de uma criança

E aprende
A construir suas estradas hoje
Porque o chão de amanhã
É muito incerto para planos
E futuros tem o dom
De se destruirem no meio do caminho

E após um tempo você aprende
Que até raios de sol queimam se você pegar demais
Então você planta seu próprio jardim
E decora sua própria alma
Invés de esperar
Que alguém lhe traga flores

E você aprende
Que realmente você aguenta
Que realmente você é forte
E que realmente você tem valor
E você aprende
E você aprende
Com cada adeus você aprende

Veronica A. Shoffstall

domingo, 14 de novembro de 2010

The gift of a friend

Drowned out by a pool of red
Intoxicating my system
Reminding me of the same shade flowing through me
Smoke clouding the space I currently reside
Reminiscent of the outside skies I fear to face
Rather than experience the harsh uncertainties that have currupted further explorations into a child with the bright curious eyes
Built up a wall of hate
Sheltered into a fantasy of recreating a promising neverland
The silver lining has lost its shine
But instead is just a line of grey,
The same hue to remind me of the color of what questions represent
To know things aren't always clear as night & day, black & white,
Grey shades, convey the in between journey
Tick tock
The sound that invades my hours of awareness, as a constant reminder that time is falling upon us
And eventually that blare everyone fears to face will wake us up only to say TIMES UP!
Disturbing my thoughts and waking me up from this emotionless song flowing through, infecting my eardrums of harmful thoughts,
Stood another form to unclench these hands used to forming fist of anger,
Whispering words to say we'll form one fist,
And I look down to realize yours have occupied the empty spaces in between to reassure me I am not alone
Eyes that used to invision crimson pains washed away by pools of blue, you wash away the flood with the same palms that used to fill the spaces in my hands
One look & all the reds & blues have dispersed to form a yellow expression
Shining as bright as the suns glow
When I finally look into those pupils filled with a worried expression
I am awaken
I look up at the skies to find that north star to lead me home resides in front of me with another set of bright eyes
Reinstating a lost feeling or warmth once again
The sun has embodied a human form that has captured me with its rays
Now, I am remembering hope
Now, I am remembering love
Now, I am remembering to smile
I am finding my sunshine

sábado, 13 de novembro de 2010

E na faculdade...

Ontem a simples menção de um nome fez meu coração acelerar.
Estou apaixonada novamente!
Amor eterno por Peter Drucker.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Free Bird

Nas últimas três semanas eu tive três encontros curiosos com pássaros.
Na primeira semana, enquanto conversava com um amigo no telefone, uma rolinha confusa vôou janela adentro no meu quarto e bateu de cara com meu espelho, que refletia o lado de fora. Continuou assim, confusa, batendo e batendo contra o espelho. Desliguei o telefone e fechei as portas para, então, capturá-la numa caixa de sapatos e soltá-la janela afora. Ela vôou.
Na segunda semana, cheguei na faculdade de mala pronta para viajar logo depois da aula. Sentei com meus amigos no laguinho quando alguém reparou algo se movendo na água. Quando vi, era outra rolinha, dessa vez filhote ainda, se afogando tentando sair do lago. A peguei em minhas mãos, a sequei com uma das toalhas usadas que tinha na minha mala e cuidamos do filhotinho enquanto assistíamos a aula do ilustríssimo professor Paulo. O filhotinho pulou da mesa, entusiasmado, pronto para voar novamente. Nós o colocamos no mato, perto do laguinho, e, quando voltamos, ele não estava mais lá. Ele vôou.
Na terceira semana, hoje, cheguei em casa de viagem e subi pro meu quarto. Assim que deitei na cama, algo se moveu do meu lado e vôou para a televisão. A princípio achei que fosse uma borboleta, mas quando parei para olhar: outra rolinha. Repeti o processo da primeira semana, fechando as portas e a capturando com uma caixa de sapato para, então, soltá-la pela janela. Ela também vôou.
Parei para pensar.
Como os três passarinhos, algo está me prendendo. Não era para existir essas janelas no caminho, muito menos lagos artificiais onde eu deveria dar meu primeiro vôo. Mas eu continuo me afogando e batendo de cara no espelho, achando que é o céu. Só falta agora alguém para me pegar e me mostrar a janela de verdade. Aí, quem sabe, eu também vôo.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

E em casa...

Satânico é meu pensamento a teu respeito, e ardente é o meu desejo de apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável pelo que me fizeste ontem. A noite era quente e calma, e eu estava em minha cama, quando, sorrateiramente, te aproximaste. Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença,aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos.

Até nos mais íntimos lugares. Eu adormeci.

Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia
ardente, mas em vão.

Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu durante a noite.
Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama, te esperar. Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força. Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos. Só descansarei quando vir sair o sangue quente do seu corpo.

Só assim, livrar-me-ei de ti, pernilongo filho da puta!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Modelo Fordista de produção em massa

Nesses últimos tempos minha vida tem passado bem Fordista.
Começou meio que naquele dia, mas já tava dentro de mim fazia tempos - eu só não agi em cima disso e me arrependi bastante, mas hoje fico feliz por isso. De todos os tombos que levei e tentativas de vingança que me tornaram nesse modelo mecanizado; desses sim me arrependo. Bem, não arrepender na raíz da palavra, porque senão não estaria em tamanha harmonia. Acho que é assim mesmo, aprendendo na marra, levando umas sovas da vida e toda essa parada aí que faz a gente levantar. É meio que nessas que a gente segue, mesmo: produzindo em massa, e, como Ford, não conseguindo baratear o suficiente pra ser acessível a todo o público. Ainda bem, hein!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Não demora ela some

Vira e mexe eu me pego com o olhar fixado em algum ponto aleatório em paredes - os olhos vidrados e a cabeça totalmente vazia. Parece que eu vou ficar ali a vida inteira, olhando pro ponto, e isso vai ser suficiente até eu morrer. Como se olhando o suficiente pra lá, não demora eu sumo. Se volto pro mundo, tudo volta a se mexer e eu continuo ali, na câmera de lente explodida, onde as cores são brilhantes demais para se olhar por muito tempo. Vivo, assim, sem arte, sem cor. É nessas horas que eu vejo: aquele ponto engraçado e hipnotizante na parede. Paro pra analisar e fico assim, horas a fio, até que dias, meses e anos passam. "Não demora ela some!", escuto no fundo. E como uma previsão: poof! Não demora eu sumo.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Harmonia

Entrei em harmonia comigo mesma, mas acho que não gosto muito, não, senão eu conseguia escrever mais que uma frase.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A viúva que não era viúva

Hoje durante o almoço, enquanto a televisão narrava sobre o assunto Bruno, percebi que minha empregada estava levemente mais alegre que nos últimos dias. Essa semana ela apareceu quietinha, cabisbaixa, e nenhuma das minhas piadinhas copiadas do meu pai a fez rir, diferente do normal.
"Não entendo como alguém consegue dormir de noite sabendo que matou uma pessoa," eu joguei casualmente, fazendo papo furado.
"É verdade," ela disse. "Também não entendo."
Caímos no silêncio novamente, escutando a notícia, que mostrava uma foto de Eliza Samudio, feliz da vida, viva.
"A gente nunca acha que essas coisas vai acontecer com a gente, né?" Tentei novamente. Acho que essas foram as palavras mágicas, pois ela então levantou a cabeça, enquanto limpava as bocas do fogão, e contou a história de um amigo que entrou num ônibus em chamas para salvar a irmã e acabou morrendo.
De algum modo, o assunto fluiu até que ela contou do primeiro namorado dela. Ela tinha 12 anos, ele 27. Instantaneamente pensei mil coisas, mas fiquei quieta e me pus a escutar.
Os pais dela, como quaisquer adultos com senso na cabeça, imediatamente foram contra. Uma diferença de idade de 15 anos, afinal: ele tinha mais que o dobro da idade dela.
Depois de muitas idas e vindas e encontros às escondidas, ela achou que estava grávida. Nessas, ela já estava com 16 anos. Comprou um teste de farmácia e deu positivo. Imediatamente ficou desesperada, mas não contou aos pais, apenas o rapaz. Ela disse que ele começou a rir e gritar, feliz da vida, saltitando como uma criança.
Ela fugiu de casa e foi morar com ele... Então, fez 17 anos e a barriga não cresceu. Alguma coisa obviamente estava errada. Foi ao médico e ele disse que ela não estava grávida; que testes de farmácia às vezes dão errado e que ela deveria ter procurado um médico para confirmar. Disse, também, que por ela ser menor, ele teria de contar aos pais dela, a não ser que ela contasse primeiro. Nessa parte ele foi bem gentil, afinal, ela tendo 17 e ele 32, era pedofilia querendo ou não.
Ela contou pros pais, e, claro, "roceiros" (como ela mesmo colocou), eles deram uma boa e merecida coça nela. Ela, então, voltou para casa e o rapaz caiu na vida. Ainda assim, os dois continuaram mantendo contato e de vez em quando tendo um remember básico.
Dois anos depois, ela com 19 e ele com 34. A essa altura, ela já tinha vindo pra Macaé e estava trabalhando, sossegada, apenas conversando com o rapaz pelo telefone de vez em quando. Concordaram que agora as coisas eram mais possíveis para os dois: ela era maior de idade, agora, e ganhava seu próprio dinheiro. Combinaram um reencontro.
Enquanto isso, em uma das festas da cidade, o rapaz bebe com um único amigo em um lugar afastado, atrás de um caminhão. O amigo concorda em ir buscar mais cerveja, enquanto o rapaz espera. Não deveria demorar mais de 5 minutos, afinal.
Bem, aparentemente, 5 minutos foi o que levou para um homem cortar-lhe a garganta com uma faca. O amigo voltou e o encontrou semi-consciente, ensanguentado (um parêntese para adicionar que, nesse ponto da história, minha narradora se confundiu e não sabia se o assassino havia cortado a jubular ou a jubilar).
O rapaz morreu ali, assim mesmo, nos braços do melhor amigo. Ele disse que, em seu último suspiro, o rapaz lhe apertou a mão como quem diz "me vingue". Bem, eu prefiro acreditar que foi como quem diz "obrigado".
Acontece que o enterro do rapaz foi realizado e a pobre moça, desolada, não pôde faltar o trabalho e não deu seu último adeus. A mãe dela foi e disse que havia pelo menos outras 3 garotas chorando e falando que haviam perdido o amor de suas vidas.
"Taí," ela disse. "Era uma vez uma viúva... que não era viúva."

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Vodka

Minha querida parceira! Nós duas somos muito parecidas.
Diferente da cerveja (aquela loirinha, vagabunda, sabe?), apenas os bons de coração nos procuram em situações sociais. Normalmente somos, eu e você, procuradas atrás de consolo.
Somos boas amigas para os outros, mas não uma pra outra.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Dear Friend,

Está virando constante em minha vida, após colocar o pijama, escovar os dentes e ligar a tevê pro tédio da programação da madrugada, uma ligação - assim, como quem não quer nada. Finjo que incomoda, reviro os olhos, dou uma risadinha e desligo. Instantaneamente estou de pé: desligo a tevê e, com um sorriso, saltito até o armário para puxar minhas roupas mais bonitas. Visto, faço pose, dou uma volta, calço mil sapatos e troco de roupa cinquenta vezes até que pronto! Perfeito.
A gente sai assim, dia de semana mesmo. Tá tudo fechado e um tédio, mas a gente se mantém em companhia e o tempo voa. Entre brincadeiras e piadas que fariam nossas mães caírem no chão mortas (sobre você sabe o quê), silêncio confortável ou papo leve.
É assim que você me mantém: leve. Tira esse peso ridículo dos meus ombros e por algumas horas me faz esquecer de tudo. É isso que faz valer a pena as noites em claro e manhãs de ressaca. Por algumas horas eu sou apenas eu e você apenas você.
Sincerely,
Me.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Inércia

Ultimamente os dias têm passado vagarosamente, refletindo em noites acesas e grosseria infundada. Na verdade algo sempre esteve fora do lugar - não como se faltasse algo, mas sim como se tivesse de tudo, mas ainda assim não funcionasse. Seis meses de noites em claro provam meu ponto.
O que assusta de verdade é a completa e total inércia que tomou conta de mim. Não quero mais gritar. No lugar dos constantes esbravejos de ódio e ponderações sobre os por ques da vida, minha mente agora só é preenchida por uma música cuja letra eu ainda não aprendi.
We must plunge, we must plunge, we must plunge.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

my one and true love

Ataque de gatos sobre caixas de fogão, calangos fujões, passarinhos de asa quebrada, pintinhos destroçados, sapos envenenados, coice de boi, carrapatos - muitos, muitos carrapatos. Pulgas tontas, SBP, cerveja, fanta uva, chiclete, cocô de cavalo, Saori, Pooh, Lubi, gato-cabeça-de-cone, fucinho desbotado, olhos de jabuticaba. Três sapatinhos, dois coelhos, um elefante, milhões de fulgas, muitas, muitas saudades.

sábado, 5 de junho de 2010

o elevador

Então tem essa menina e ela acabou de chegar em casa depois da escola e ela saltou da van escolar pra entrar em casa. O motorista espera ela entrar e depois parte para entregar as outras crianças e a menina chama o elevador do prédio. O porteiro puxa assunto e ela responde, porque sua mãe disse para não falar com estranhos, mas o porteiro é conhecido e consertou a torneira do banheiro dela, já que seu pai perdeu uma mão num acidente num estaleiro ao lado da maior ponte do mundo. Então o elevador chega e a menina entra e aperta o botão do décimo sétimo andar e fica esperando pacientemente, até que o vizinho triste de barba branca do 1706 entra no terceiro andar e fica com a cara amarrada ao lado da menina. Ela fala bom dia, mas ele simplesmente entorta a cabeça para a direita e a menina olha hipnotizada para seu gogó enorme que salta do pescoço e parece que vai furar a pele. Até que o elevador de repente pára - pára totalmente com um baque surdo no décimo quinto andar e as luzes se apagam e a menina não escuta mais nada além do barulho de fios elétricos estourando e o elevador balançando. Os dois sentem o elevador cedendo e a menina já tem lágrimas nos olhos e grita: "O que está acontecendo?!" e o velho segura seus dois ombros e olha para ela e diz: "Nós vamos para o parque. O parque de diversões. É a Disney - a Disney é sua! Não tem nenhuma fila e você tem altura para ir na montanha russa. Parabéns, querida." E então ele começa a cantarolar uma música e o passeio começa.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

haligh, haligh, a lie, haligh

Agora nós falamos com línguas arruinadas
e as palavras que dizemos não são direcionadas a ninguém.
É apenas uma frase resmungada para um conhecido que passa
mas uma vez havia
você.

domingo, 23 de maio de 2010

further explanations

Ontem a noite eu tive um encontro casual com alguém que eu decepcionei e deixei para trás.
"Nossa!" eu exclamei. "Como você está diferente. Mudou, está bonita."
E ela apenas me lançou um sorriso triste, meio de lado, como quem diz que não pode dizer o mesmo. Eu carregava uma cerveja em uma mão e um cigarro na outra. Ela, nada. Apenas tinha um fone no ouvido, o outro pendurado educadamente sobre seu ombro esquerdo.
Ficamos nessa por um tempo. O silêncio tão denso que poderia ser cortado com uma faca ou sofrer uma grande perturbação caso alguém se movimentasse bruscamente. Dava pra sentir, enquanto ela fixava seus olhos enormes do tamanho de duas jabuticabas em os meus já caídos por efeitos alcoólicos.
Então ela levantou uma mão, imediatamente perturbando o campo que havia se formado entre nós. As unhas dela não estavam pintadas - eu percebi enquanto ela aproximava sua mão do meu rosto, tocando suavemente minha bochecha esquerda com a ponta de seus dedos pequenos.
"Tem uma manchinha aqui," ela disse com os olhos voltados pra minha bochecha. "Você também está diferente. Mais magra e mais sozinha. Quando foi a última vez que você olhou no espelho? Porque você mudou."
Ela desfez o contato contra meu rosto e deu um passo para trás.
"É," ela pausou. "Você mudou."
E que saudades da sua companhia solitária!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

I get them all day through, first from them, now from you

Cansei de todo esse barulho! Chega de trens pesados em trilhos de metal e trim trim irritante de despertador. Cansei de plac plac de papel batendo um contra o outro na Rio Branco e também de apito das roletas. Não aguento mais ouvir estórias de quem não existe e crianças andróginas na televisão. Cansei dessa cidade que explode em sons até mesmo no silêncio mais profundo da hora dos espíritos. Quanto maior o barulho, maior meu silêncio.
E dá vontade
de
GRITAR.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Fantasma em Botafogo

Hoje na estação de Botafogo eu vi um fantasma. Ele usava as mesmas roupas da última vez que o vi e o mesmo cabelo levemente encaracolado. O fantasma deu as costas sem me olhar uma única vez e subiu as escadas - a cada passo de suas pernas há pouco curtas, duas porradas fortes no meu peito. Meus pés grudados no chão, meus olhos em sua blusa branca. Eu observei, sem me mover, enquanto ele alcançava os últimos degraus e passava a roleta, alcançando as cabines de fora. Eu pisco - vai que ele some? Mas ele ainda está lá, um pé atrás do outro, em seus passos marrentos para a direita. Meus olhos o acompanham até a saída - mas ele nunca olha para trás.
O fantasma desceu em Botafogo, mas eu segui até a Uruguaiana com seu sorriso maldoso em minha mente e meus pés grudados no mesmo exato ponto desde que o vira.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Sunrise, Sunset

Quando foi a última vez que você olhou no espelho?
Porque você mudou.
É, você mudou.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

El cielo

O problema do carisma é que faz todo mundo acreditar.
O problema de acreditar é a decepção.
O problema da decepção é que é difícil de consertar.
O problema de consertar é ter que agir.
O problema de agir é o medo.
O problema do medo é que te deixa parado.
O problema de ficar parado é que nada muda.
O problema de nada mudar é que a decepção permanece.
Mas com o tempo dói menos, até que ficam apenas as memórias e os segredos mais profundos.
El cielo es azul, just don't go telling everyone.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Like a Looney Tune

Não é para me vitimar que digo que as únicas coisas estáveis na minha vida são as respirações ritmadas que se mesclam como uma e ecoam pela casa a noite. Não durmo por falta de opção, verdade, mas o impedimento é de todo meu. Das encruzilhadas decididas na sorte, avisos de "Pare" ignorados e sinais ultrapassados ainda não me arrependo - absolutamente. O fato é que, como Coiote Coió, comecei a perseguição de maneira racional e planejada; me empolguei com o prêmio próximo demais e o tomei como garantido. Persegui de maneira descompassada e por vezes tentei pegar atalhos estúpidos: culpa das minhas multifacetas. Meu alvo lançou suas armadilhas bobas e eu caí nelas, mas jamais desisti do prêmio. Corri. Corri bastante. De fato, com o perdão da palavra, corri pra caralho. Achei que não podiam me culpar por isso - e talvez não possam mesmo, apesar de, como já disse, não querer me vitimar aqui. Mas a verdade é que o detentor da culpa já não importa. Perdi meu alvo de visão e, como o Coiote Coió, quando olhei pro chão, havia pulado do penhasco - minhas pernas balançando inutilmente sobre os 500 metros de altura que me esperavam.

sábado, 24 de abril de 2010

delilah

Eu tenho costelas altas e penso demais. É como se assim que me ocorre um pensamento, minha mente faz questão de dissecá-lo em busca de diferentes interpretações antes de poder libertá-lo pela minha boca. Mas ao mesmo tempo, eu também não penso tanto, porque enquanto tudo é bem simples, eu desmonto e não consigo remontar de volta ao sentido original.
Às vezes eu queria ser mais como ela, cujos problemas não fazem tanta diferença na hora de formar um sorriso. Ela, que desenvolve um texto enorme e coerente sobre uma frase que ouviu há semanas e tira notas boas. Ela, que come carboidratos à vontade, sem aumentar um centímetro na circunferência e sabe o nome de todos os presidentes do Brasil. Quando ela fala, todos prestam atenção. Quando ela ri, todos sorriem. Ela é o tipo de pessoa que todos acham esforçada só por ficar parada e ser bonita. O simples ato de respirar parece uma tarefa precisa e bem executada por ela.
Ela não é muito engraçada, nem muito asseada. Ela coleciona moedas raras e usa esmalte de cores muito sem graça, mas seu menor sorriso é suficiente para alegrar o dia de qualquer um. Ela não tem nada na cabeça - e por isso encanta a todos.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Pra que gastar meu tempo pra demonstrar meu ódio quando Lily Allen o faz tão perfeitamente?
Fuck you, fuck you very very much! :)

terça-feira, 6 de abril de 2010

it's cool, we can still be friends

Você diz que eu te machuquei e sua voz é como uma prece. Talvez eu tenha te machucado um pouco, vamos comparar e contrastar: levanta sua camisa, a ferida não está lá.

sábado, 3 de abril de 2010

everybody loves a big fat lie.

Hoje eu não vou quebrar a cabeça e perder meu tempo pensando numa metáfora trágica tão quão meu desencanto. Babaca é quem desperdiça palavras pra descrever a dor; desperdiça uma tela pra mantê-la monocromática. Mas mais babaca ainda é quem vê arte numa tela de uma cor só.
Por isso hoje vou poupar minha inteligência e meus esforços pra não criar nenhum fuzuê com minha história. Dor transborda inspiração, mas não é arte. É triste; é mentira.
Não há nada de conceitual em tristeza.
É só dor.

domingo, 21 de março de 2010

Lover I don't have to love

I want a lover I don't have to love
I want a girl who's too sad to give a fuck
Where's the kid with the chemicals?
I thought he said to meet him here, but I'm not sure
I got the money if you've got the time
You said "it feels good"
I said "I'll give it a try"

sábado, 20 de março de 2010

E o ventilador gira...

Deitadinha no meu apartamento novo. Meu. Tem gente na sala conversando, gente no banheiro se vestindo pra sair e álcool na garrafa. Pela janela tem um Rio de Janeiro que eu mal comecei a ver. Lugares e pessoas que eu ainda não conheci. Mas eu ainda tenho algum tempo. Por hoje, eu só deito, penso e sorrio de lado pra quem fizer um requerimento adiantado. O Rio de Janeiro ferve lá fora, mas por hoje minha mente permanece na saudade de casa, mãe e utensílios domésticos. Por hoje é só chão vazio, colchão inflável e copo descartável. Mas só por hoje.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Nós somos muito legais

Entre um copo e outro, olhar de quem entende. Apesar do final de semana ter passado quase invisível por detrás de toda a fumaça e turvo pela embriaguez, só quem é muito maneiro entende a poesia do álcool. Arde, desce rápido e queima. Viva a vodka; Camões dos babacas. Viva o rum; Vinícius dos esquecidos. Viva a cachaça, querida aguardente que não abandona. Não é um soneto, nem uma poesia propriamente dita, mas representa a epopéia da gente; os otários. Só quem já foi sacaneado entende que álcool rima com tudo que você quiser. Mas a gente não sofre tanto, não. No fundo, no fundo, a gente gosta, porque só a gente faz ser otário sinônimo de ser legal.
E tenho dito.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

País das Maravilhas

Imagine você numa cidade estranha com gente estranha e um calor incomumente bizarro. Você acorda todos os dias antes do sol nascer para tomar um banho sem vergonha, só pra dizer que saiu de casa limpa. Se veste pra gente desconhecida. Nada é familiar; você ainda se perde. Olha no relógio e percebe que de nada adiantou levantar-se antes do mundo. Seu banho sem vergonha, só pra dizer que saiu de casa limpa, durou seu tempo de café e só lhe resta meio cigarro na caminhada até o ponto. Ninguém diz bom dia - isso é meio que um alívio. E depois são horas arrastadas de espera até seu destino - e a cabeça vagueia por lugares conhecidos por tanto tempo que você até esquece onde está. Você assiste o sol nascer. Você faz planos. Você percebe que não poderá realizá-los, porque três horas - 185 malditos quilômetros - te separam de casa. Onde tudo é familiar. Onde tudo tem cheiro de tempos melhores. Foram 18 anos de tentativas frustradas até você conseguir se encaixar e você se pergunta se serão 18 anos de mais frustração até se encaixar no lugar estranho com gente estranha. Você não é Alice, mas o tempo também corre onde você está.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

The Green Mile

Nesse final de férias, os dias têm passado como meses: arrastados, lentos e dolorosos. Cada hora do dia é algo que eu deixo para mais tarde. Atraso meus deveres e prazeres para no fim me surpreender com o relógio e o calendário. O dia passou; e eu na mesmice. Mas parece absurdo viver esse fim de férias, porque minha última semana é como a preparação pra guilhotina. Medo. Aceitação. Arrependimento. E ainda assim, um pouco de ânsia. Vontade de me jogar no rio de jacarés, pronta para ser devorada e destroçada até a morte. Mas a verdade é que, talvez, no fundo, no fundo, esse desejo venha da certeza, ainda que pequena, de que eu vou sobreviver. Fora de casa, longe do conforto, sozinha no rio de jacarés esfomeados, o nado não vai ser tranqüilo, mas eu sei que vou conseguir. E talvez, no fundo, no fundo, o medo seja do outro lado. Talvez essa não seja a cadeira elétrica. São apenas quatro anos de caminhada lenta pela milha verde.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Verão

Não suporto mais desse céu azul e sol brilhante! Quero cambalear pelas calçadas coberta até o pescoço de pano grosso e escuro, quero cabelo caindo nos olhos e risada trêmula de frio. Quero narizes vermelhos e vozes roucas.
Quero edredon de infância e carinho de mãe com sopa.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Se houvesse como apagar memórias da minha vida, não sei se apagaria você ou se apagaria aquela noite. Não se magoe com minha honestidade; é dor momentânea de memória de elefante. Cabeça dura, que mexe e remexe o que já estava morto. Você tenta criar um novo, eu sei. Eu vejo. É bonito, o que você criou. É alegre. Mas não é o que já morreu. Tem a mesma aparência, o mesmo cheiro, o mesmo gosto... mas não é igual. E é por isso que eu mexo e remexo: porque o de antes era tão perfeito, mas você deixou cair no chão.
Mas não se magoe, meu amor. Dê uma caminhada depois do bom acontecer. Diferente às vezes é melhor.
Ninguém nunca vai te amar como eu te amo.