sábado, 30 de maio de 2009

Quando o telefone toca

Engoli minhas mágoas, ofereci uma mão. Ignorei a pontada no peito, o sonho que me esperava do outro lado do cabo telefônico, o desejo. Esqueci minhas preocupações sem motivo, minha dor infundável e meu desejo de afundar. Vesti minha melhor luva amiga, uma capa marrom e pulei no meu cavalo azul pra salvar minha tartaruga de barriga pro sol. Ninguém ri do destino quando o telefone toca, ninguém ri de uma lágrima sem sentir uma empatia disfarçada de graça.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O álcool entra, a mentira sai

Atiro hipocrisias em olhos brilhantes, sorrisos em meio à magoas e risadas em verdades cruéis. Espalho o cinismo de mesa em mesa, sento no colo da tristeza, me atiro nos braços da falsidade. Fecho os olhos pra não ver o que vivo e enxergar minha mais doce realidade ou o mais próximo sonho que vier. Deixo as lágrimas secarem antes de cair, a luz apagar antes de acender e jogo os braços na primeira música que escutar. Sorrio e me encontro na realidade da crença.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Sentimento Dantesco

Encruzilhadas decididas na sorte, avisos de "Pare" ignorados e sinais ultrapassados. Houveram quase-acidentes, pequenas transgressões e grandes preocupações jogadas fora. Atravessei a rua quando a luz vermelha piscou; nem correndo para tentar garantir. Joguei o futuro nas mãos da sorte, o destino nas mãos do acaso e não me arrependi de nenhum arranhão e nenhuma fratura. Os buracos fecharam, as feridas sararam, os ossos remendaram e o sangue lavado. A dor foi momentânea e minha capacidade de projeção se esgotou. Das encruzilhadas decididas na sorte, dos avisos de "Pare" ignorados e sinais ultrapassados não me arrependo, pois somente passando por esses perigos que cheguei em você; meu sonho Dantesco.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Cegueira do Sentimento

Encontrei certa vez na rua uma criança cega de coração partido. As pessoas aproveitavam de sua deficiência para simular a mesma, olhando para o lado oposto. Não sabia se ficava feliz por tê-la para mim ou triste por ela não ter quem ela queria. Prometi que não ia me cegar pelo sentimeto. Recorri ao meu egoísmo, abracei-a no meu colo e a roubei para mim. Não salvei a criança da solidão, mas sim fui salva da cegueira do sentimento. Promessa cumprida.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Pesadelos no teto e sonhos na privada

Alguém fez uma seleção dos meus piores pesadelos e colou no teto para eu nunca parar de vê-los. Onde eles estão, é impossível de alcançar. Eu sou baixa perante o desejo deles.
Dos cinco pesadelos, três se realizaram, um está perto e um nunca se realizará.
De meus sonhos já esqueci, mas o que permanece é a certeza de que dificilmente um dia eles chegarão. É como se eu tivesse pedido pela incerteza: colaram meus pesadelos no teto e jogaram meus sonhos na privada.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Alma no banheiro

A ânsia não passa. A pia fede a vômito para combinar com minha alma; nada está aonde deveria estar. No ônibus um casal troca carícias. Uma criança brinca com a mãe no parquinho. Uma avó guarda uma foto do neto na carteira. Seu diário tem mensagens de paz e passagens da Bíblia. Tem gente feliz na televisão, no mundo, ao meu redor. Os pensamentos de todos são positivos, enquanto os meus não passam de negatividade repetitiva, chegando a enjoar. Polos opostos se atraem e eu me encaixo no mundo; puxada com força para o que eu gostaria de ser. Na pia agora limpa permanece a lembrança da ansiosidade e no meu coração ainda sujo permanece a presença.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Besides, maybe this time it's different

Esse é o último dia do início da minha vida. Ando pela rua de paralelepípedos soltos, pisando descuidadamente nos buracos, sem me preocupar com sujeira, tombos e arranhões. Estou sob aquela mesma noite, estou sob aquelas mesmas estrelas. Olho para dentro de mim, e não tem um único traço de você aqui dentro. Penso bem e lembro da risada, dos toques e do arrepio que eles causavam. Tento identificar o que eles me passam e repulsa é a única coisa que me vem à mente. Eu sorrio. Esse é o primeiro dia do resto da minha vida.

A história de um cachorro chamado Barnabé

Dizer que Barnabé era um belo cão seria uma subestimação. Com seus macios pêlos cor creme, sua expressão de cachorro levado e seu fucinho extremamente negro, tão negro que mais parecia uma jabuticaba, Barnabé era, no mínimo, o mais belo cão da cidade.
Dormia com seus donos em uma cama de molas confortável e os retribuía com seus beijos lambuzados, um extremo apreço e lealdade sem fim. Mas, acima de tudo, Barnabé era apenas um cão. Era levado para passear, soltava seus dejetos pela rua e latia para gatos. Balançava o rabo por não poder sorrir e latia por não poder falar.
Barnabé levantava com seu dono pela manhã e partia para sua caminhada matinal. Comia um pote cheio de ração para cães, acompanhava a dona pelos cantos onde sua presença era permitida e pedia carinho. Podia dormir o dia inteiro ou brincar pelo jardim. Podia ficar deitado apreciando a empregada trabalhando ou correr com as crianças. Podia comer o dia inteiro ou simplesmente dormir. Podia fazer travessuras ou comportar-se.
Mesmo visto como o mais belo dos cães, Barnabé ainda era apenas um labradoodle. Para o mundo, Barnabé não pensava e não via cores. Mas o que os homens não sabiam era que, mesmo que cientificamente Barnabé visse o mundo preto e branco, na realidade sua vida era um belo arco-íris. Do mesmo jeito que suas vidas eram cientificamente coloridas, mas teoricamente preto e branco. Eles apenas não sabiam disso porque pensavam demais.

domingo, 10 de maio de 2009

sábado, 9 de maio de 2009

Por céus azuis

Faz um longo ano desde que nos falamos pela última vez.
Como vai sua auréola?

Ódio

Ódio, ódio, ódio, ódio, ódio. QUE PUTA ÓDIO NESSE CARALHO DE VIDA, PORRA.

Enfia no cu, beijos.

Alma Limpa

O que uma orgia na casa de estranhos não faz para a alma, não é mesmo? Não tem nada melhor que descobrir que uma pessoa da qual você pensava mal na verdade é outra coisa totalmente diferente - e ainda fazer amizade.
Prefiro mil vezes um elogio de estranho e sincero que um íntimo duvidoso.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Eu e a folha de papel

A inspiração está pulsando em mim e eu não consigo achar uma via de escape, então resolvi postar aqui. Escuto Audioslave no computador enquanto rabisco minha ânsia para fora, descarregando tudo numa folha de papel inocente. Pauso e fico olhando para minha parede, observando com curiosidade o jeito como Lily Allen, Audrey Hepburn, Rita Hayworth, Marilyn Monroe, Jane Russell, Humphrey Bogart, Julie Andrews, Che Guevara e Ingrid Bergman olham de volta para mim com os pensamentos ocultos. Tem gosto de cigarro na minha boca e desejo de café na minha alma. Penso em todas as músicas que significam algo para mim e como eu gostaria de ter alguma aptidão musical para poder tocá-las; saber que aquelas notas estão ali por minha causa. Então percebo que todos que citei até agora fizeram sua parte na história e na arte e que mesmo se eu soubesse cantar um quarto das músicas que me emocionam, elas ainda perteceriam a outras pessoas. O mundo inteiro está se movendo e eu estou parada. Eu e, bem, a folha de papel.

A vida num iPod sem fones

Tentei ficar um dia sem ouvir música e não consegui. Me senti uma tela em branco, esperando ansiosamente para ser preenchida com cores. Queria ser azul como Belle & Sebastian, La Rocca e José González. Queria que me dessem pinceladas bruscas de vermelho como Dresden Dolls, David Bowie e Peaches. Queria ser pintada; precisava ser cheia. Nem que fosse preto e branco como Louis Armstrong, Henry Mancini e Ray Charles. Então peguei meu iPod, conectei os fones de ouvido e selecionei as músicas aleatórias. Sorri e saí andando, feliz da vida, sem uma preocupação no mundo.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Bela infância

Fechei os olhos uma noite e rezei silenciosamente para que a escuridão fosse preenchida com um filme. Quando abri os olhos, o mundo era exatamente o mesmo e nenhum conto de fadas invadiu meu sono. Ainda havia o mesmo ônibus todas as manhãs para um lugar desconhecido - a sala branca, recepcionada por jalecos brancos e máscaras - e a mesma prece silenciosa dentro do carro. Ainda havia a confusão, o desejo de saber o que acontecia e o motivo de toda a dor. A mesma pergunta não sumiu. O sofrimento gravado no caderno de couro azul me continuava um mistério.
A única coisa que mudou foi minha boca, que por algum motivo se cansou de dizer aquelas três palavras que deveriam manter as fundações firmes. A confusão parou de jorrar de meus lábios, e no lugar surgiu um silêncio. Um vazio inexplicável; o medo da resposta, que veio em forma de sangue onde não deveria haver. A narradora da história se esgueirava pela porta e eu a lançava para fora com um olhar reprovador. Ela sabia com o que lidava. Foram milhões de conflitos, guerras, bombas, tiros, acidentes, suicídios, almas perdidas.
"Agora não," suplicava. "Ainda não. Só mais um pouco."
Ela me lançava um olhar empático, fazia meia volta e deixava a casa - sempre mantendo um olho na fechadura, esperando um deslize sequer. Volta e meia, olhando pela porta entreaberta com o coração na boca, me pego lançando o mesmo olhar suplicante aos olhos vazios da dito cuja.
"Agora não," eu repito. "Ainda não. Só mais um pouco."

quarta-feira, 6 de maio de 2009

I'm crazy about Tiffany's

-Me diga algo que tenha escrito. Uma estória.
-Esse é um dos problemas. Elas não são o tipo de estória que se conta.
-Sujas demais?
-Talvez. Qualquer dia te deixo ler uma.
-Whisky e maçãs combinam. Me faça um drinque, querido. Então você poderá me ler uma você mesmo.
Muitos poucos autores, especialmente não-publicados, conseguem resistir um convite para ler em voz alta. Eu preparei um drinque para cada um de nós dois e, sentando na cadeira oposta, comecei a ler para ela, minha voz um pouco tremida com a combinação de medo de atenção e entusiasmo: era uma nova estória, a havia terminado no dia anterior, e esse inevitável senso de imperfeição não teve tempo de crescer. Era sobre duas mulheres que dividem uma casa, professoras de escola, uma das quais, quando a outra noiva, espalha notas escandalosas anônimas e previne o casamento. Enquanto leio, cada olhar que roubo de Holly faz meu coração contrair. Ela está impaciente. Ela separou as cabeças no cinzeiro, ela analisou suas unhas das mãos; pior, quando eu pareci ter capturado seu interesse, havia na verdade um olhar distante em seus olhos, como se ponderando se deveria comprar um par de sapatos que vira em alguma vitrine.
-Este é o fim? - ela perguntou, acordando. Ela procurou algo mais para dizer. - É claro que eu gosto de lésbicas. Elas não me assustam nem um pouco. Mas estórias sobre lésbicas me entediam mais que tudo. Eu simplesmente não consigo me colocar em seus lugares. Bem, mesmo, querido, - ela disse, porque eu estava claramente confuso. - Se não é sobre um casal de velhas sapatonas caminhoneiras, sobre que diabos é a estória?
Mas eu não estava no humor de compor o erro de ter lido a estória com a futura vergonha de ter de explicá-la. A mesma vaidade que me levou à tamanha exposição, agora me forçava a taxá-la como insensível, burra e amostrada.
-Incidentemente, - ela disse. - Você acontece de conhecer uma lésbica boazinha? Estou procurando por uma parceira de quarto. Bem, não ria. Eu sou tão desorganizada que simplesmente não consigo pagar uma empregada; e, mesmo, sapatões são ótimas donas de casa, elas amam fazer todo o trabalho, você nunca precisa se preocupar com vassouras e descongelar e lavanderia.  Eu tinha uma colega de quarto em Hollywood, ela atuava em faroestes e eles a chamavam de Lutadora Solitária; mas eu vou lhe dizer algo, ela era melhor que um homem na casa. É claro que as pessoas acham que eu sou meio lésbica eu mesma. E é claro que eu sou. Todos são: um pouco. E daí? Isso nunca desencorajou um homem antes. Na verdade, isso parece animá-los. Olha só a Lutadora Solitária, casada duas vezes. Normalmente sapatões se casam apenas uma vez, pelo nome. Parece ser tão oficial hoje em dia, ser chamada Sra. Alguma-coisa Outra-coisa. Isso não é verdade! - ela estava olhando para o relógio. -Não pode ser 4:30!

terça-feira, 5 de maio de 2009

O jogo começou

Uma venda é amarrada em volta da minha cabeça e eu saio a tatear pelos cantos. Escuto uma voz doce cantando na esquina e um sorriso dá o ar de sua graça em minha expressão. Uma risada de criança, um cachorro latindo, um cumprimento gritado, um toque no meu ombro.
Abro os olhos. A voz doce pertence a um trovador sem uma perna. A risada pertencia à uma criança de lábios leporinos. Me desespero. O cão que latia foi atropelado pelo caminhoneiro que gritava seu alô e distraía-se na estrada. Viro-me com olhos de aflição e quem havia me cutucado era meu anjo.
-Sorte está nos olhos de quem vê.
Recoloco a venda e me isolo na conotação de não enxergar.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Arte de viver

Descobri meu maior talento; serei artista. Acordo de manhã e esculpo um sorriso no meu rosto. Vou pra escola e finjo estudar com uma pintura démodé de números, letras, triângulos e fórmulas. O sinal toca e eu entro no carro. A conversa com a minha mãe é uma discussão filosófica acalorada sobre notas, dinheiro e escola. Em casa, o dever de casa é um filme que passa sem eu assistir. Subir as escadas é quase um samba. O banho é um concerto, com um banquinho e um violão. Meus pensamentos são um livro que eu recito sem ler. Eu vou dormir novamente, e, surpresa! A escultura é permanente! Socorro, meu rosto está cravado com uma única expressão.

sábado, 2 de maio de 2009

Escória do Universo

Eu ligo a cobrar, eu peço carona, eu pego dinheiro emprestado, eu furo fila de banheiro, eu escolho a música no carro dos outros, eu dou direções sem ter certeza, eu desconheço senso de certo e errado.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Não dou valor...

À isqueiros bic. Meu pai. Canetas bic. Unhas do pé. Rede Globo. Um certo amigo. Uma certa amiga. Meu blog. Um cigarro no meio de vinte. Um amigo no meio de vinte. Vinte amendoins no meio de cem. Rádio. Religião. Primos. Lanternas. Pilhas. Minha nação. Controle remoto da TV. Warner channel. Parques de diversão. Tempero na comida.

Coisas que eu não levo na minha mala de viagem, mas sempre sinto falta quando acabam.