segunda-feira, 29 de junho de 2009
Antítese Psicológica
Há algo de sobrenatural na natureza humana - ou pelo menos na minha - que nos faz tomar uma aversão à mentiras. Disfarçamos a verdade que vaza pelos buracos com alta confiança e desejo de aproximação. Passamos nossas vidas procurando quem nos escute e então falamos. Colocamos tudo para fora sem pensar nas consequências; sem se importar se aquela pessoa realmente vai guardar aquilo tudo. Afinal de contas, quanto mais cheio de hipocrisias estamos, mais vazios nos sentimos.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
O Palhaço
Vermelho no papel, preto no humor, branco no sono. Desenho um sorriso num papel usado, recorto com uma tesoura cega e colo no meu rosto com cola de bastão. Conto histórias e mentiras; me perco na linha que os divide. Limpo meu nariz sangrento no banheiro e rio do palhaço que me ri de volta através do espelho. Ele tem uma máscara porca, suja, mal feita, e eu rio de sua maquiagem borrada. Uma ponta do seu sorriso falso está caindo. Palhaço porco, imundo. Há algo que posso fazer por você? Há alguém para quem eu posso ligar para te socorrer? Honestamente, eu não queria rir tão alto. Apenas parecia absurdo dizer que você veio trazer alegria com passos atrapalhados e sorriso borrado. Afinal de contas, o vermelho do nariz do palhaço não é de sangue.
terça-feira, 16 de junho de 2009
Nada
Coisas que eu gostaria de guardar num potinho pra poder abrir sempre:
Abraço da minha avó. Dormir abraçadinha com minha cachorra. Ronronar do meu gato. Ir pra escola com meu pai. Cheiro da comida da minha mãe. Cheiro de chuva quando bate no asfalto quente. Barulho do telhado quebrado do vizinho da casa da minha avó. Natal.
terça-feira, 9 de junho de 2009
Auréola
Levanto uma bagunça, me visto de roupas surradas, quebro a lei enlouquecidamente pelas ruas. O cabelo é um emaranhado de fios negros, as pernas são curtas e os braços tortos. Meus olhos ficam caídos, os passos são lentos e mal calculados e o fedor de cigarro me persegue. Com a caligrafia torta, anoto o que me obrigam. Com uma caneta roubada, rascunho besteiras nos cantos das páginas. Passo o dia em fome, passo a noite em claro. Sou uma bagunça sem fim, mas tudo faz sentido quando olho em olhos que me enxergam com uma auréola, e, por um segundo, eu acredito no reflexo.
domingo, 7 de junho de 2009
Coreografia do amor proibido
Disfarço amor com amizade, abraço com frio, olhar furtivo com distração, desejo com abraço amigável e taquicardia com beijo na bochecha.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Nosso Tempo
Morte e doenças andam de mãos dadas; algumas derrubadas pelo caminho, outras permanecendo firmes e fortes. Umas se escondem atrás de outras para não serem derrubadas e outras apenas esperam para crescer. Umas são estatísticas, outras desastres. Umas ferem, outras são ciência.
Todos esperam filosofia de tragédias, mas sentido não pode vir de algo que nunca teve nem nunca terá.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Figura de Linguagem Corporal
Meu passado é uma epígrafe de uma palavra. Encho meus dias de metáforas para tentar colorí-los, faço dos minutos arrastados grandes epopéias, vivo numa conotação sem fim. Fecho os olhos para entrar num buraco negro e me transporto para onde meu coração me levar. Faço declarações para quem quiser ouvir; as disfarço em metonímias. Converso com meus sonhos; os disfarço em prosopopéias. Choro pra quem quiser consolar; disfarço em hipérboles. Junto tudo isso, transformo numa mistura uniforme e engulo todos os dias de manhã. Sorrio para o mundo, mas na verdade não passa de uma catacrese.
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