domingo, 5 de julho de 2009

Sing

Inteligente o rádio, velha bugiganga movida à pilhas, que ouve o barulho de vidro estilhaçando, de plástico quebrando, de coração partido. Ignora seu funcionamento normal, sente o escuro no ar, escuta o barulho dos átomos se separando, luta contra sua natureza e me afaga as costas. Inteligente o rádio, velha bugiganga movida à pilhas, que sabe a música certa na hora certa, que sente o humor, a cor do vento, a tonalidade do céu, a umidade do ar. Esquenta meu corpo, costura minhas feridas e depois me trai. A música que segurava minhas lágrimas, as fazem cair. Acerta-me o rosto, faz um barulho mais alto que o do vidro estilhaçando e o plástico quebrando. Inteligente o rádio, que me estapeia, me chuta, me maltrata, me faz sofrer, me faz chorar, me faz tremer, me faz gritar. Inteligente o rádio, que sabe que há uma coisa que é como foder, exceto que não se fode. Eu canto.