-Esse é um dos problemas. Elas não são o tipo de estória que se conta.
-Sujas demais?
-Talvez. Qualquer dia te deixo ler uma.
-Whisky e maçãs combinam. Me faça um drinque, querido. Então você poderá me ler uma você mesmo.
Muitos poucos autores, especialmente não-publicados, conseguem resistir um convite para ler em voz alta. Eu preparei um drinque para cada um de nós dois e, sentando na cadeira oposta, comecei a ler para ela, minha voz um pouco tremida com a combinação de medo de atenção e entusiasmo: era uma nova estória, a havia terminado no dia anterior, e esse inevitável senso de imperfeição não teve tempo de crescer. Era sobre duas mulheres que dividem uma casa, professoras de escola, uma das quais, quando a outra noiva, espalha notas escandalosas anônimas e previne o casamento. Enquanto leio, cada olhar que roubo de Holly faz meu coração contrair. Ela está impaciente. Ela separou as cabeças no cinzeiro, ela analisou suas unhas das mãos; pior, quando eu pareci ter capturado seu interesse, havia na verdade um olhar distante em seus olhos, como se ponderando se deveria comprar um par de sapatos que vira em alguma vitrine.
-Este é o fim? - ela perguntou, acordando. Ela procurou algo mais para dizer. - É claro que eu gosto de lésbicas. Elas não me assustam nem um pouco. Mas estórias sobre lésbicas me entediam mais que tudo. Eu simplesmente não consigo me colocar em seus lugares. Bem, mesmo, querido, - ela disse, porque eu estava claramente confuso. - Se não é sobre um casal de velhas sapatonas caminhoneiras, sobre que diabos é a estória?
Mas eu não estava no humor de compor o erro de ter lido a estória com a futura vergonha de ter de explicá-la. A mesma vaidade que me levou à tamanha exposição, agora me forçava a taxá-la como insensível, burra e amostrada.
-Incidentemente, - ela disse. - Você acontece de conhecer uma lésbica boazinha? Estou procurando por uma parceira de quarto. Bem, não ria. Eu sou tão desorganizada que simplesmente não consigo pagar uma empregada; e, mesmo, sapatões são ótimas donas de casa, elas amam fazer todo o trabalho, você nunca precisa se preocupar com vassouras e descongelar e lavanderia. Eu tinha uma colega de quarto em Hollywood, ela atuava em faroestes e eles a chamavam de Lutadora Solitária; mas eu vou lhe dizer algo, ela era melhor que um homem na casa. É claro que as pessoas acham que eu sou meio lésbica eu mesma. E é claro que eu sou. Todos são: um pouco. E daí? Isso nunca desencorajou um homem antes. Na verdade, isso parece animá-los. Olha só a Lutadora Solitária, casada duas vezes. Normalmente sapatões se casam apenas uma vez, pelo nome. Parece ser tão oficial hoje em dia, ser chamada Sra. Alguma-coisa Outra-coisa. Isso não é verdade! - ela estava olhando para o relógio. -Não pode ser 4:30!
