quinta-feira, 7 de maio de 2009

Bela infância

Fechei os olhos uma noite e rezei silenciosamente para que a escuridão fosse preenchida com um filme. Quando abri os olhos, o mundo era exatamente o mesmo e nenhum conto de fadas invadiu meu sono. Ainda havia o mesmo ônibus todas as manhãs para um lugar desconhecido - a sala branca, recepcionada por jalecos brancos e máscaras - e a mesma prece silenciosa dentro do carro. Ainda havia a confusão, o desejo de saber o que acontecia e o motivo de toda a dor. A mesma pergunta não sumiu. O sofrimento gravado no caderno de couro azul me continuava um mistério.
A única coisa que mudou foi minha boca, que por algum motivo se cansou de dizer aquelas três palavras que deveriam manter as fundações firmes. A confusão parou de jorrar de meus lábios, e no lugar surgiu um silêncio. Um vazio inexplicável; o medo da resposta, que veio em forma de sangue onde não deveria haver. A narradora da história se esgueirava pela porta e eu a lançava para fora com um olhar reprovador. Ela sabia com o que lidava. Foram milhões de conflitos, guerras, bombas, tiros, acidentes, suicídios, almas perdidas.
"Agora não," suplicava. "Ainda não. Só mais um pouco."
Ela me lançava um olhar empático, fazia meia volta e deixava a casa - sempre mantendo um olho na fechadura, esperando um deslize sequer. Volta e meia, olhando pela porta entreaberta com o coração na boca, me pego lançando o mesmo olhar suplicante aos olhos vazios da dito cuja.
"Agora não," eu repito. "Ainda não. Só mais um pouco."